Eu não sirvo para fazer isso

24 de novembro de 2009 | Cultura

No livro A República Platão discuti a criação de um modelo de sociedade ideal, onde cada indivíduo pertencente a esta sociedade executasse apenas um ofício, e que este fosse o que lhe trouxesse mais prazer e o que ele melhor realizasse.

O modelo baseava-se basicamente da seguinte forma: O médico apenas clinicaria, o professor apenas educaria, o escritor apenas escreveria, o comerciante apenas venderia, o pintor apenas pintaria, o estudante apenas estudaria e assim por diante pois essas eram as atividades que lhes proporcionavam mais prazer e a que eles melhor sabiam fazer.

Como modelo funciona muito bem obrigado, já na prática a coisa se torna um tanto quanto diferente. Primeiro porque muitos dos indivíduos pertencentes a sociedade não realizam profissionalmente a atividade que lhes traz mais prazer, segundo porque em muitos casos esses indivíduos não realizam a atividade de maneira satisfatório por não serem capazes, ou simplesmente por não estarem interessados, e terceiro, porque é impossível que cada indivíduo realize apenas uma determinada tarefa.

O terceiro elemento apontado acima é ponto crucial de toda essa cadeia. Se na prática o modelo funcionasse da maneira como foi proposto, estariam erradicados elementos básicos para a sobrevivência do ser humano, como o individualismo, pois a todo momento necessitaríamos que um segundo indivíduo realizasse determinada tarefa para darmos continuidade as nossas próprias tarefas, estaríamos fadados a dependência alheia.

Parece ruim não é mesmo? Mas se pararmos para analisar, o modelo acima é sim aplicado na sociedade atual, mas não de forma tão radical. Hoje em dia existem poucas coisas que podemos realizar sem a dependência de um segundo indivíduo nos auxiliando de alguma maneira, mas não deixamos de realizar tarefas individualmente mesmo com o auxílio de outrem;

Mario Brios

Digo isso porque na noite de ontem eu tive que limpar a caixa de gordura do apartamento, pois a possibilidade que levantamos quando vimos que a água da pia parou de descer era que o acumulo de dejetos de comida tinha entupido a saída. Após verificar que mesmo a caixa estando limpa a água continuava parada eu vesti meu macacão vermelho e tentei dar uma de Mario Bros.

Resultado? A cozinha e a lavanderia cheias de sujeira de esgoto, eu exausto, faxina em plena segunda-feira as 23 horas, o apartamento inteiro fedendo e a pia ainda entupida.

Eu não sirvo para isso, eu me preparei e continuo me preparando para trabalhar como Desenhista, utilizar ferramentas de CAD e projetar móveis. Além de não ter o preparo para realizar um desentupimento de encanamento eu não tenho as ferramentas necessárias para tal atividade. Seria melhor se eu tivesse seguido o modelo sugerido por Platão? Claro, mas é humanamente impossível querer que isso aconteça sempre e querer impedir as pessoas de tentar.

O ser humano odeia ser totalmente dependente de um segundo indivíduo - visto que a dependência passa a impressão de vulnerabilidade - e mesmo vivendo numa sociedade colaborativa somos individualistas, e tal sentimento é essencial para a nossa sobrevivência.

Nós gostamos de ser desafiados e tentamos resolver por conta própria coisas que não fazemos ideia de como funcionam. Somos seres curiosos por natureza, talvez por esse motivo tenhamos chegado ao nível de instrução e evolução ao qual chegamos e ao qual continuamos a seguir.

Na teoria o modelo é bonito e parece funcionar muito bem, mas se ele tivesse sido adotado na sociedade, já teríamos deixado de existir a muito, seríamos apenas rastros no deserto apagados pelo vento.

Não obstante, a sociedade precisa continuar sendo colaborativa para continuar existindo e evoluindo, bem como precisa continuar sendo individualista, sem esses dois elementos não conseguimos continuar.

A vida é um paradoxo.

PS: Eu nunca mais irei vestir o macacão vermelho, nem que para isso eu tenha que trocar favores sexuais por dinheiro para pagar um Mario Bros genuíno.

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Comentários (1)

 

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