Viagem Mental

As circunstâncias fazem um homem

Henrique Artur Wint

Desde antes do término do Ensino Médio eu sempre tive em mente que não levaria muito tempo para eu sair de casa, desde aquela época (por volta de 2003-2004) eu me imaginava morando e estudando em Porto Alegre. Ao final do 3º ano eu já havia assimilado três princípios básicos a respeito: 1 – Eu não tinha certeza se Música era o que eu realmente gostaria de cursar; 2 – Meus pais não teriam condições de me manter em Porto Alegre enquanto eu apenas estudava e 3 – Eu não estava preparado para passar no vestibular de uma Universidade Federal.

Na minha concepção da época, o principio número 2 era o maior motivo que ainda me segurava em Venâncio, ainda que na visão de hoje, o terceiro principio seria o grande fator para não me levar a capital. Contudo, os anos passam e as circunstancias fazem um homem.

Passei um ano em banho maria, apenas trabalhando como recepcionista de vídeo locadora e ganhando salário de estagiário, o qual eu gastava em bebidas, telefone, compras e um curso que fiz por insistência dos meus pais, nada de muito construtivo para a vida de uma pessoa, excluindo em partes o curso.

Como nunca foi do meu agrado ficar sem ter muito o que fazer, decidi prestar vestibular no final do ano, já sem a ilusão de Porto Alegre na cabeça, prestei para Engenharia da Computação na Univates, faculdade que fica em Lajeado, a 25km de Venâncio. Acabei passando em 9° lugar e naquele momento, era aquilo que eu queria. Já empregado como Projetista de Móveis em uma grande Moveleira da minha cidade, eu lutava para pagar 2 cadeiras (matérias) e manter meu consumismo e as bebedeiras.

Logo no primeiro semestre o primeiro balanço na corda, a oportunidade de um emprego em uma estação de sky dos EUA me fez pensar no que eu deveria fazer da vida, acabei decidindo continuar cursando e musicando, coisas que não levaram muito tempo para sair dos meus planos. No segundo semestre novamente a oportunidade de sair do pais me surgiu, e eu levei esta com mais fé e cheguei a ir mais longe, devido a isso abandonei a faculdade tendo cursado apenas 2 semestres e concluído apenas quatro cadeiras (matérias).

O ano de 2008 foi de preparação para a saída do Brasil, consulta de preços e preparações de documentos, tudo feito com calma e tranquilidade. Porém, a vida para eu sempre foi tão inconstante que eu nunca pude afirmar com certeza se eu realmente levaria aquilo até o fim, e eu não levei. Devido a questões “inerentes” a mim, eu acabei desistindo de ir.

Passados alguns meses eu decidi que estava na hora de eu retornar aos estudos, já estava me sentindo agoniado em chegar todo dia em casa e não ter para onde ir e sem ter algo de construtivo para fazer. Como eu havia me envolvido muito com blogs e mídias sociais durante 2008, decidi cursar Publicidade, cheguei até a fazer minha matrícula, mas não paguei a primeira parcela porque novamente a inconstância da minha vida havia me levado para outros rumos.

Entre o processo de ‘ajuste interno de matrícula’ e o pagamento da primeira parcela do semestre, minha mente transitou por inúmeros lugares e teve inúmeras ideias, e dessa vez, eu posso afirmar que não houve inconstância e eu finalmente tomei uma atitude que me levou até o fim, eu fui homem o suficiente para assumir as responsabilidades.

Passei dias enviando currículos para empresas de Caxias do Sul, Bento Gonçalves e região, e após algum tempo de procura eu tive um retorno e finalmente cheguei ao final do meu objetivo principal, subir a serra. No qual, não posso chamar de fim, porque onde o mesmo termina, ele já recomeça de outra maneira.

O que eu posso dizer hoje é que as circunstancias fazem um homem. Hoje eu realmente me vejo como um homem, um homem que é auto suficiente financeiramente, que paga aluguel, luz, internet, comida, roupas e ainda tem dinheiro para sair, muito diferente daquele piá de merda que não sabia o que queria da vida a alguns meses atrás, que a todo mês mudava inúmeras vezes de ideia e não tinha um objetivo certo para si.

Nesses cerca de doze meses que estou em Caxias eu me encontrei, agora sou o Henrique que eu buscava, sem máscaras ou medos. Estou vivendo algo que eu sempre quis, e o que antes era incerto clareou, e eu pude ver que é realmente isso que sou e que quero para mim.

Sinto muitas saudades das grandes pessoas que deixei pra trás, e que vejo que pouco a pouco vou as deixando, tanto pela distância quanto pelos assuntos, que querendo eu ou não, acabam mudando, ainda assim, continuo as amando como antes, familiares e amigos. Foram e são pessoas muito importantes para mim, mas pessoas vem e vão, e acabamos suprindo-as com outras.

Os amigos que conquistei aqui, são os melhores possíveis, melhores do que um dia eu esperei ou imaginei. E os finais de semana têm se tornado cada vez melhores, não há mais bebedeiras e gente caindo pelos cantos e rindo uns dos outros (isso era algo que eu amava, me divertia muito, mas já não mais o que eu necessito – não que eu não tenha feito isto aqui, no entanto, o fiz enquanto sozinho), mas sim uma cumplicidade e uma paixão pela amizade que temos uns pelos outros. Isso tem me tornado mais feliz, e uma pessoa melhor.

Independência requer responsabilidade, e responsabilidade se conquista com independência.

“A vida é linda, a Bahia é linda, e tu ai passando frio?!”Mariana

Eu não sirvo para fazer isso

No livro A República Platão discuti a criação de um modelo de sociedade ideal, onde cada indivíduo pertencente a esta sociedade executasse apenas um ofício, e que este fosse o que lhe trouxesse mais prazer e o que ele melhor realizasse.

O modelo baseava-se basicamente da seguinte forma: O médico apenas clinicaria, o professor apenas educaria, o escritor apenas escreveria, o comerciante apenas venderia, o pintor apenas pintaria, o estudante apenas estudaria e assim por diante pois essas eram as atividades que lhes proporcionavam mais prazer e a que eles melhor sabiam fazer.

Como modelo funciona muito bem obrigado, já na prática a coisa se torna um tanto quanto diferente. Primeiro porque muitos dos indivíduos pertencentes a sociedade não realizam profissionalmente a atividade que lhes traz mais prazer, segundo porque em muitos casos esses indivíduos não realizam a atividade de maneira satisfatório por não serem capazes, ou simplesmente por não estarem interessados, e terceiro, porque é impossível que cada indivíduo realize apenas uma determinada tarefa.

O terceiro elemento apontado acima é ponto crucial de toda essa cadeia. Se na prática o modelo funcionasse da maneira como foi proposto, estariam erradicados elementos básicos para a sobrevivência do ser humano, como o individualismo, pois a todo momento necessitaríamos que um segundo indivíduo realizasse determinada tarefa para darmos continuidade as nossas próprias tarefas, estaríamos fadados a dependência alheia.

Parece ruim não é mesmo? Mas se pararmos para analisar, o modelo acima é sim aplicado na sociedade atual, mas não de forma tão radical. Hoje em dia existem poucas coisas que podemos realizar sem a dependência de um segundo indivíduo nos auxiliando de alguma maneira, mas não deixamos de realizar tarefas individualmente mesmo com o auxílio de outrem;

Mario Bros

Mario Bros

Digo isso porque na noite de ontem eu tive que limpar a caixa de gordura do apartamento, pois a possibilidade que levantamos quando vimos que a água da pia parou de descer era que o acumulo de dejetos de comida tinha entupido a saída. Após verificar que mesmo a caixa estando limpa a água continuava parada eu vesti meu macacão vermelho e tentei dar uma de Mario Bros.

Resultado? A cozinha e a lavanderia cheias de sujeira de esgoto, eu exausto, faxina em plena segunda-feira as 23 horas, o apartamento inteiro fedendo e a pia ainda entupida.

Eu não sirvo para isso, eu me preparei e continuo me preparando para trabalhar como Desenhista, utilizar ferramentas de CAD e projetar móveis. Além de não ter o preparo para realizar um desentupimento de encanamento eu não tenho as ferramentas necessárias para tal atividade. Seria melhor se eu tivesse seguido o modelo sugerido por Platão? Claro, mas é humanamente impossível querer que isso aconteça sempre e querer impedir as pessoas de tentar.

O ser humano odeia ser totalmente dependente de um segundo indivíduo - visto que a dependência passa a impressão de vulnerabilidade - e mesmo vivendo numa sociedade colaborativa somos individualistas, e tal sentimento é essencial para a nossa sobrevivência.

Nós gostamos de ser desafiados e tentamos resolver por conta própria coisas que não fazemos ideia de como funcionam. Somos seres curiosos por natureza, talvez por esse motivo tenhamos chegado ao nível de instrução e evolução ao qual chegamos e ao qual continuamos a seguir.

Na teoria o modelo é bonito e parece funcionar muito bem, mas se ele tivesse sido adotado na sociedade, já teríamos deixado de existir a muito, seríamos apenas rastros no deserto apagados pelo vento.

Não obstante, a sociedade precisa continuar sendo colaborativa para continuar existindo e evoluindo, bem como precisa continuar sendo individualista, sem esses dois elementos não conseguimos continuar.

A vida é um paradoxo.

PS: Eu nunca mais irei vestir o macacão vermelho, nem que para isso eu tenha que trocar favores sexuais por dinheiro para pagar um Mario Bros genuíno.