Dia-a-dia
Aventuras em um ônibus no feriadão
17/11/09
Temos por consenso que a população anda evoluindo, tomando mais consciência a respeito de algumas atitudes e não as tendo mais em determinados locais, mas todo esse papo furado cai por terra quando o sujeito coloca o pé dentro de um ônibus.
O ser humano racional perde por completo sua racionalidade já na sexta-feira a noite, quando se descola de sua casa até a rodoviária, nesta, a grosseria, o atraso e a impaciência imperam entre os usuários.
Primeiro é o empurra-empurra no guichê para a compra de passagem, e neste ponto podemos ver de tudo, desde gente que fica conversando com o atendente sobre a filha da vizinha da vó materna que ficou gravida do sobrinho da prima da vizinha da atendente do guichê, até pessoas que tentam comprar passagem sem dinheiro e/ou cheque de quintos (porque nesse ponto de terceiros já passou longe).
Num segundo momento, todo mundo está se empurrando e chingando a mãe no terminal de espera, onde o motorista tenta pacientemente (muitas vezes sem sucesso) acalmar o povo para que ele possa guardar as malas e depois verificar a passagem e ceder a liberação de entrada no carro. Só que o usuário neste ponto já perdeu toda a sua racionalidade e não tem mais consciência do que é ‘aguardar a sua vez’.

Ônibus
Depois de 30 minutos de espera, todos conseguem acomodar-se confortavelmente em suas poltronas e você percebe que o silêncio impera (exceto pelo maravilhoso ruído do ar-condicionado), eis então que surge um determinado sujeito traumatizado por ter a mãe que troca favores sexuais por dinheiro com o último lançamento do MV Bill falando sobre o tráfico, as drogas e sobre as colegas de profissão da mãe no ultimo volume possível. Fazendo assim com que todos os usuários sejam obrigados a escutar toda aquela maravilhosa poesia. Com isso, outros usuários também concluem que todos os demais usuários tem o direito de ouvir a música que ele gosta, então o interior do ônibus transforma-se numa festa de sons desconexos e irritantes.
Quando seus ouvidos já estão acostumados com os inúmeros sons oriundos de todos os MP’s qualquer coisa presentes no recinto, surge então um pequeno ser que faz com que você queira ouvir novamente (e somente) todas as músicas ao mesmo tempo. Sim meus caros, o bebe que está com a família de 12 membros sentado ao seu redor começa a chorar, e como desgraça nunca é pouca, as demais crianças resolvem entrar para a sinfonia, cada qual tentando alcançar notas mais altas, e você começa a lembrar que se passaram apenas 30 minutos das 6 horas de viagem que você deve enfrentar.
Como choro de criança é um belo método de tortura e todos voltam a desejar apenas o silêncio, os magníficos DJ’s desligam seus MP’s qualquer coisa para tentar fazer com que as crianças se acalmem, este é um momento impar na viagem, visto que todos se unem num esforço para um único bem comum, o silêncio.
Quando você se dá por conta, o silêncio voltou a reinar no interior do ônibus e surge o aquele pensamento ‘agora finalmente poderei descansar’, mas criança é um ser com pilhas sempre carregadas, e logo surge aquele primo que estava no banco de trás cutucando o primo da frente. Elaia, e ai começa novamente a farra, é criança gritando e correndo no corredor, mãe estérica atrás gritando e chingando o filho tentando fazer o mesmo se acalmar, e assim segue a viagem por mais algum tempo.
Algumas horas depois a bagunça diminui e algumas crianças caem em um sono profundo, ai você se sente maravilhado por essa benção dos céus. Mas o seu ‘vizinho’ (fato, você nunca consegue pegar janela) não é um ser abençoado e resolveu tomar alguns litros de água na lanchonete da rodoviária, e ai começa novamente o seu incomodo.
Tudo acontece quando você está naquele estado de ‘pesca’, quase começando a dormir, de repente você sente um cutucão no braço e acorda, então ouve um ‘com licença’ do seu vizinho que está se contorcendo para não urinar nas calças. Educadamente você sede passagem e o vê correndo para o banheiro do ônibus.
Para não ser acordado novamente você espera seu companheiro retornar, mas quando você percebe que desde sua saída da poltrona já se passaram trinta minutos, você decidi voltar para o seu sono de beleza. Então logo você apaga e começa a sonhar com sua vizinha experimentando a nova lingerie com a cortina do quarto aberta, e neste exato momento seu vizinho retorna, novamente lhe cutucando e pedindo licença.
Neste ponto da viagem você já percebeu que ficar acordado é a única saída que lhe foi imposta, seu único desejo é que existe silêncio no recinto e que você também possa permanecer em tal estado. Mas ai vem o casal de idosos sentado ao seu lado puxar papo, como um ser educado você dá assunto e ouve pacientemente a senhora contar durante duas horas sobre a doença do neto pentelho que lhe incomodou algumas horas antes.
Depois de ter feito sua boa ação do dia conversando com a senhora, você se ilude novamente acreditando que irá ter um minuto de descanso, mas muitas mães não conhecem o efeito do famoso remédio Dramim e não consultam um Pediatra antes de saírem para viagem para verificar se o seu lindo filho(a) pode tomar o famoso remédio ou algum com o mesmo efeito.
O pequeno anjo então acorda e solta um ‘tô ruim mãe’, em menos de cinco segundos você verá derramado pelo chão do ônibus uma gosma em tom salmão com todo o lanche de boteco de rodoviária que o pequeno comeu. Novamente é questão de segundos até o aroma floral começar a subir e entrar violentamente pelas suas narinas lhe causando um leve mal estar.
Olhando para o relógio você percebe que falta somente mais uma hora de viagem, o ônibus finalmente está em silêncio e você lentamente pega no sono. De súbito, você escuta o motorista gritando da sua cabine informando que chegaram ao destino final.
No final das contas você percebe que as tão planejadas horas de descanso no ônibus lhe deixaram mais cansado que trabalhar o dia todo como servente de pedreiro.
E eu quase fui iludido pela minha própria inocência
26/10/09
Certa vez li em algum rincão da internet que os produtos da Positivo eram de qualidade um tanto quanto duvidosa, não levei muita fé devido ao crescimento que a empresa vinha tendo no mercado, cheguei até a pensar “finalmente surgiu no país uma empresa que não quer cobrar 5 vezes o valor do produto somente pela marca”.
Alguns anos depois me vi saindo de casa e indo morar a uma certa distância da minha antiga residência, não podendo levar comigo um computador que um dia eu tive, muito menos o que pertencia a minha irmã. Tudo bem, a vida tem dessas coisas.
Mas sabe como é Brasileiro né, ainda mais pobre e recém iniciado na vida fora da barra da saia da mãe, cada centavo é precioso. Certo dia quando eu assistia televisão vejo uma super oferta de um notebook Positivo em oferta, então eu pude sentir o brilho nos meus olhos, eu finalmente estaria de volta as paradas da internet, poderia me comunicar novamente e ser eu novamente.

Positivo / Negativo ?
Logo que fui visitar a casa dos meus pais, passei na loja para ver o tão sonhado notebook. O mesmo era básico, vinha com Linux por default, 1GB de memória, processador Celeron e 120GB e HD, o que era a minha maior preocupação. Como Brasileiro não perde uma promoção, fui logo comprando e fazendo um carnê de infinitas vezes (vou passar o resto da vida pagando).
Como um bom usuário padrão logo ao chegar em casa fui instalar o Windows e fazer os procedimentos padrões, tudo andava muito bem e eu realmente acreditava que a Positivo estava a favor dos pobres e oprimidos.
Nos primeiros meses tudo funcionou muito bem, exceto o Windows Vista que não conversava muito bem com o coitado do Celeron nem tinha uma relação amistosa com o 1GB de memória RAM compartilhada com a memória de vídeo. Até que um certo dia, o monitor começou a flertar com a minha pessoa, ok, eu até acredito na evolução da tecnologia, mas pela bagatela que me custou o notebook, eu sabia que as piscadas que eu vinha recebendo não eram de uma relação de amor.
Então minha ilusão começou a cair por terra, as piscadas foram ficando cada vez mais frequentes e eu já não podia mais abrir a tampa do notebook em sua totalidade, pois se isso fosse feito, a imagem simplesmente desaparecia. Chegou o dia em que usar o notebook ficou totalmente sem condições, então resolvi procurar a assistência técnica na esperança de ouvir algo reconfortante que fizesse eu ascender novamente a chama da confiança na marca.
Ao chegar na loja fui explicando os sintomas que meu menino estava sofrendo, fiquei incomodado com a maneira que a atendente ia abrindo o sorriso a cada nova palavra que saia da minha boca. Para meu espanto, o caso é tão frequente que o diagnóstico é feito mesmo sem antes avaliar o material in loco. Trata-se do cabo flat que faz a ligação “carcaça/tampa” que deu defeito, e segundo a moça, extremamente comum em computadores Positivo.
Como procedimento padrão, levei o notebook para os técnicos avaliarem e eles constataram que o problema foi o que a recepcionista da loja constatou. Acabei retirando ele no sábado para ir utilizando enquanto a Positivo não manda a peça para a autorizada, mas o uso do mesmo está praticamente impraticável, quase não vejo o que está na tela e ainda tenho que usá-lo em uma posição totalmente desconfortável.
Depois de toda essa novela mexicana, eu aprendi novamente que o barato sai caro e que o que uma maioria afirma com veemência é realmente verdade.






